Expurgos

Expurgos é uma série de poemas escrita a partir do acúmulo.

Acúmulo de pensamentos não ditos, afetos mal resolvidos, desejos reprimidos, contradições que não encontram lugar no discurso cotidiano.

???

Lábios arqueados, sintéticos

Salário? De fome, compra felicidade

Diferentes cores, formatos e administrações.

Em vinte e quatro horas, mil novas paixões

Encapsulado. Paradeiro desconhecido.

Rótulos craquelados começam a desbotar

Sou inconstante, sou importante, não sou ninguém.

Voyeur às avessas, quebrei meus reflexos

Cansado dos outros

Observo para me entender.

Àquele que paga por tudo

Responsável por tudo

Homeopatia do silêncio

Administro para acordar.

Amar? Não permito

Esquecer? Me recordo

Sonho em ser lembrado

Sabendo que não serei.

“Deixe-me ir, preciso andar”

Quero?

Desertado pelas minhas mentiras

Novos amores parecem impossíveis

Inalcançáveis, como a fé.

Viver, para quê?

Novos lábios não dirão “te amo”

Em diferentes texturas, sabores e intenções.

Despido para buscar a mim

Peregrino escoltado pela solidão

Horizontes inexplorados

Potenciais apagados

Caminhei com o que me faltava.

Perdi meu eu de mim mesmo.

A todos que julguei inferiores, peço desculpas

Sua inferioridade se mostrou superior

Talvez o que me faltou.

Não (me) represento mais

Minguado e pungido, verti todas as cores, exceto carmim

Lobotomizado, enfim.

Mestre de Cerimônias

Juntem-se

Encolham-se

Acomodem-se.

Escutem todos a história do antigo castelo

Motivo de orgulho até a verdade se revelar.

Mascarado e incompreendido, mas venerado

Enfim desprezado para a decepção dos aldeões

“Era apenas ouro de tolo”.

Distante, cravejado e alvo

Diamantes, safiras e rubis

Bem quisto pelos serafins

Odiado por si.

Pó compactado, feridas abertas

Taradas para desmoronar

Após anos de omissão.

Pelo bem maior

Disponível para todos

Menos para si.

Pelas paredes, ecos e sinfonias

Pianos, vozes, trompete e percussão.

Obras ressoando profunda admiração

Óleo, acrílico, química e iluminação

Tudo para si.

Na ribanceira, salgada ao longo dos anos

Obras privadas, para olhos selecionados

Imagens, sons e movimentos

Um par, por quase toda a vida

Um recôndito para si.

A quem confiou uma espiadela, um punhado aceitou

Outros tentaram expurgar, lavar, polir e educar.

Nariz tocando os focinhos, às orelhas confessou em vão…

A água se afogou por anos; mofo, limo e sedimentos

O fogo não apagou o desejo de ser quem deseja

Acatou para si.

Bandeiras subiram e baixaram

Amarelo e preto

Branca e vermelho

Azul, por fim

Branca, rendição.

Sorveu lágrimas

Roeu memórias

Mentiu para si.

Divinações fracassadas

Franqueza estraçalhadas

Injustiça culposa e dolosa

Recolheu-se.

Àquele que fora rígido por uma vida

Ruiu em segundos ao flexionar.

Acolha-me.

Bernardo (ou Interrompido)

Entre balões e possibilidades

Antes de existir

Me agarrei à você.

Entre prantos e pratos

Salguei minha mente.

“Só não quero sentir dor”.

Testemunha da partida

Aos 32, em 23, o 13º

Doloroso, menos que viver.

Disrupção na ordem da vida

Por dias, lágrimas e sorrisos

Por meses, “Meus pêsames”

Por anos, “Podia ser diferente”

Pela vida, ânsia pelo reencontro.

Tramas e traumas

Corda convertida

Fio da Vida.

Grafite lançado ao caderno vermelho

“Não bato palmas para a morte”

Quantas folhas arrancadas não arderam

Buscando queimar partes de mim

Partes que agora o acompanharão.

A ideia de tê-lo

Me manteve aqui.

Expurgo

Pensei sermos plurais

Erro do fadado ao singular.

Minha seiva lançada ao campo

Encontra seus valores no sumidouro

Trinca virando par, órfão enfim.

Vínculo arrítmico, vinganças sem nome

Desejos tênues, convertidos em estática

2:24 rompe os subterfúgios

Amores maquiados acalmam sua mente.

Meu tríptico — Mente, Alma e Coração — descansará

Acompanhada — sozinha — sua consciência — existe? — derramará

Seus valores germinam campos divergentes

Fontes secas, nascentes desviadas

Recipientes vazios, mãos bebendo lodo.

“Sirvam desculpas empanadas, cozidas ou requentadas”

“Minha loucura custou caro; em caminhos já traçados não invisto mais”

Sua língua pinicará ao vê-lo provar seus erros

Não haverão trombetas, reencontros ou perdão

“Por que nos abandonaste?”, arfando.

Preocupação subitamente convertida em ira

“Por que causas tanta mágoa?”, descompassado

Mantenha a fé, passe no crédito o que nunca debitou.

180 dias

Como seria

Em 180 dias

A vida acabar?

Quais olhares gostaria de encontrar?

Quais livros, filmes ou músicas escutar?

180 banhos

180 dias de sol

26 finais de semana

Alguns dias de chuva.

Bernardo: 18 meses

Victor: 34 anos

Funeral: 120 dias.

Inversão na ordem da vida.

Ano bissexto me roubou

Aniversário sem bexigas

Natal sem presentes

Ano novo sem presença.

Memórias desatadas

Pontos cruzados

Pontos invisíveis.

Pensei que a vida fosse costura sobreposta

Quando na verdade era ponto alinhavo.

Pensei ter pouco mais 30 ou 40 anos

Para transformar ansiedades em poemas.

90 dias de inquietação

Devoro sentimentos

Me afogo em pensamentos

Dores de cabeça e tensão.

“Vou morrer virgem de tantas coisas”

“Quando foi a última vez que fiz algo novo?”

Sobre o que valerá a pena escrever?

Quais mensagens farão sentido pintar?

Quais paisagens ou momentos registrar?

Pensar na finitude não desacelerou o tempo.

A realidade entre o que desejei ser

Colidiu com a realidade do que pude fazer.

60 banhos

Inúmeras de notificações

30 pores do sol

Milhares de entregas de valor aos stakeholders

15 “bom dia”

Centenas de arrependimentos

10 “já falei que te amo?”

Fazer as pazes com deus e o diabo

5 dores da partida

“Já está acabando?”

A vida não espera pela morte.

Confissões

Cuidei mal de mim

Sigo com descuido.

Meu buffet está repleto:

À direita, desilusões da vida

No centro, amores impossíveis

À esquerda, desejos reprimidos.

Em cima, o que sempre desejei

Embaixo, o que pude alcançar

Sal, açúcar e gordura, voilà.

Escolhas? Ilusórias

Pensamentos in natura

Sentimentos ultraprocessados

Apetite apenas pelo palatável.

Regurgito dores

Noites mal dormidas

Medos descabidos

Sonhos silenciados

Amores requentados.

Por falar em amor…

Me afeiçoei a você

Sem ver o amor chegar.

Quantos poemas escrevi

Quantas cartas já queimei

Juras de amor planejadas

Sexo amigo, amizade enfim.

Mergulho em seus olhos desnudos

Seios encostados em meus lábios

Mãos e pernas entrelaçadas

Ofegante, gozo sozinho.

Você já sabe tudo sobre mim

Sobre nós, não havia o que imaginar.

A vida é menor por não tê-la.

Carta Penitencial

Nascido no pecado, marcado pela culpa

Ensaios abortados de se auto-libertar

Diante de opções, fartei-me de monotonia.

Agora, busco realidades onde caiba sonhar

Sem armaduras, parcialmente desarmado

Carne pulsando, levemente exposta

Pronta para dar e comer.

Não quero mais resistir, desejo apenas existir.

Você me lembra uma memória…

Carta para destinatário ausente

“Retornar ao correspondente

Sonhos não entregues; não insistir”

Qual selo faltou desta vez?

Existir por tantos dias gélidos

Ensinou que se preparar para o frio

Não o faz durar menos.

Mesmo nos dias mais duros

(Com a certeza que outros virão)

Rego todas as minhas esperanças

Aguardando pelo seu desabrochar.

A vida é mais triste

Para quem, como eu

Precisa se decifrar.

Cemitério de Amores ao Céu Aberto

Caixas decoradas

De todas as cores

Formatos e cheiros

Diferentes conteúdos e

Estágios de putrefação

Segurando os amores

Que já se libertaram

Entre lágrimas, risadas

Amizades, mortes ou

Suicídios reais — ou pior:

Metafóricos, de vidas

Sem sentido após o fim.

“Eu te amo porque te amo”

“Para que chorar? Já tem tristeza o bastante no mundo”

“Eu quero a sorte de um amor tranquilo

Com sabor de fruta mordida”.

Saltam aos olhos atentos

Estas e outras miríades

De frases em cartas

Escritas com o calor da mão

Ou com a frieza da impressora

Em todos os formatos e gramaturas

Por aqueles que encontraram

Muito antes destes que copiaram

Como expressar o calor do amor.

Pelúcias entumecidas

Com pêlos sujos e curtos

De quem parou no tempo

Apoiadas em corações

Com símbolos de amor

Sendo compactadas

Em blocos difíceis

De digerir.

“Te peço um favor… nunca mude.

— É impossível, meu amor.”

A realidade dos fatos

Apresentadas durante

Discussões legítimas e

Nas que não fizeram sentido também

Provaram que estava certo

Ela queria estática

Ele era movimento.

Cartas com destinos incertos

Redigidas por destinatários arrasados

Rasgadas e perfuradas pela dor

Muitas lidas, relidas e remoídas

A maioria jamais entregues

Pela falta de coragem ou

Pelo tempo que findou.

“Não sei porque ainda te amo”

“Acho que me acostumei à você”.

“Te esquecer será o mais fácil pra mim”.

“Se não for comigo, não será com ninguém”.

“Em outros olhos, encontrei o que jamais teríamos”.

“Sei que você está mal, mas estou também…”.

“Amei o que poderíamos ser, mas odeio o que nos tornamos”.

“Pode procurar, piranha! igual a mim, não vai encontrar

— Essa é a intenção, seu filho da puta.

Onde estava com a cabeça quando te amei?”.

“Pensei que viveria mais tempo, meu amor…”.

“Para sempre irei te amar”

Artefatos arqueológicos do esmorecimento

Memórias dos objetos um dia simbolizaram…

Fantasmas expurgados e exorcizados

Mas que ainda assombram

Quem ousa se lembrar.

Os lixões já viram e processaram

Mais juras de eternidade e

Objetos de amor e admiração

Do que existem nas casas e corações.

Confronto

Você nunca me falou

Quem foi seu amor.

“…”

Prazer, meu nome é terror

Balas importadas

Rompem corações locais.

Mentes por trás das trincheiras

Crivam sonhos e

Criam esculturas —

Amontoados de corpos —

Expostos para comunicar.

Crianças e adultos

Idosos ou por vir

Não importa…

A maldade encontrou a todos

Destruindo quem por seu caminho

Ousou cruzar, questionar ou intervir.

“Planos? Sobreviver ao dia”

É tudo que pode-se pedir.

Fotografo;

Registro;

Questiono;

Escrevo;

Rascunho;

Imploro para parar

Enquanto sibilos

Cortam o ar e

Encontram cabeças

Miúdas, mutiladas ou

Fragilizadas.

Nação sem um lar.

“Quem financia este terror,

Se importa com os fins,

Infelizmente, o meio somos nós”.

Metas batidas

Vidas ceifadas;

Lotes ininterruptos

Valores obscenos

Produtividade para

Encomendar a morte.

Mães abatidas

Pais fazendo

O que nunca fazem,

Chorar.

“Era músico…

Trompetista, numa banda de jazz.”

Viramos todos massa

Putrefata, remexida,

Ossos, pele e sonhos

Espalhados simplesmente

Para pavimentar outra guerra

Que com certeza virá.

“Esta foi a única arma que peguei na vida

Antes desta de metal aqui…”

Risadas e “masculinidade”

Misturadas para diluir a tensão

Até a próxima sessão de adrenalina.

“Lembrem-se recrutas…

Comecem pelas crianças

Fonte do mal futuro”

Conheço este pai,

Bancário

Aeromodelista

Pai de gêmeos.

O verniz da humanidade

É mais fino do que imaginava.

“Prazer, meu nome é terror”

Nunca descobri, se tal nome

Era ação ou colateral.

O que é ser desumano?

Existem os que desejam

Sobretudo, matar.

Noites mal dormidas

Testemunham céus iluminados

São fogos, não de artifício;

Aqui o único artifício

É o ofício de matar

Enquanto sonhamos com o fim.

Sobrevivi às custas de milhares

Dilema do sobrevivente,

O que pensariam enquanto contemplo

O autoextermínio no conforto de casa?